sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

POR LILIAN HIRATA
ILUSTRAÇÃO MG STÚDIO

A polêmica do uso da maconha vai além das canções de Bob Marley, que pediam a legalidade de seu consumo. Nos últimos anos, é o meio científico que tem se interessado pela controversa planta, chamada cannabis sativa. Só que a preocupação da ciência gira em torno de objetivos mais legítimos do que os defendidos pelo cantor de reggae. Segundo os pesquisadores, a intenção não é defender o consumo popular da erva, mas estudar e comprovar os usos e efeitos terapêuticos de algumas substâncias que a compõem. Para isso, há um esforço conjunto de grandes centros acadêmicos e da indústria farmacêutica no mundo inteiro. Este movimento, porém, tem encontrado empecilhos, considerando o fato de a maconha estar, desde o início do século 20, na lista de drogas ilícitas e, conseqüentemente, proibida em muitos países, inclusive para uso médico.

No Brasil, segundo Dartiu Xavier, professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Unifesp), é possível estudar cientificamente as propriedades da maconha, mas a autorização é conseguida 'a duras penas'. Por essa razão, no mês de agosto, uma equipe de profissionais da Associação Brasileira Multidisciplinar sobre Droga (Abramd), liderada pelo professor, chacoalhou a opinião pública ao divulgar um manifesto público sobre o potencial terapêutico de determinadas drogas, desde que bem estudadas, pesquisadas e aplicadas. "Há uma tendência da sociedade e de alguns profissionais da área científica de só enxergar o lado negativo dessas substâncias. A cordeína e a morfina, por exemplo, são derivadas do ópio e, no entanto, são medicamentos valiosos para a medicina", argumenta.

Principais descobertas

Há muito já se sabe que a folha dacannabis sativa contém mais de 60 substâncias, chamadas de canabinóides. Mas, até agora, as que mostraram maior potencial de ação foram o THC (tetrahidrocanabinol), princípio ativo da planta, e o canabidiol.

Apesar das pesquisas nesse campo não serem uma novidade, mesmo que em menor escala, o estopim aconteceu no início dos anos 90, quando o cientista israelense Raphael Mechoulam, da Universidade de Israel, um dos pioneiros na área, identificou no cérebro humano um neurotransmissor que possuía a mesma composição do princípio ativo da droga, o THC, que ele chamou de anandamida. Essa semelhança impulsionou a descoberta de outros, e inclusive constatou-se que desempenham diversas funções no corpo, como o controle do apetite e das sensações de dor e ansiedade. Muitas outras ainda permanecem desconhecidas.

Segundo o professor Dartiu Xavier, defensor do uso das substâncias da maconha para fins medicinais, isso se deve à falta de incentivos e ao exagero, que denomina 'ideologia medieval', propagado de que as drogas possuem somente o lado negativo. O estudioso explica que o THC, por exemplo, em alguns países, já é usado com sucesso, como inibidor da ânsia de vômito em pacientes com aids - por causa do excesso de remédios que tomam - e câncer - que sofrem com náuseas intensas por não tolerarem as sessões de quimioterapia, o que pode levar ao abandono do tratamento. "Nesses casos, esses medicamentos atuam como uma importante alternativa ao paciente", afirma.

O QUE HÁ NAS SUBSTÂNCIAS DA CANNABIS

THC: o tetrahidrocanabinol é o princípio ativo da droga responsável pela sensação de 'barato' em seus usuários. No entanto, além de já ser base de remédios no controle de enjôos de indivíduos com câncer e Aids, os pesquisadores acreditam haver perspectivas de uso em pessoas com dores crônicas. Isso, devido à capacidade desses canabinóides se conectarem aos neurônios, intervindo em seu comportamento, inclusive na sensação de dor. Por causa dessa manipulação, ele também tem sido uma esperança a mais na guerra contra o excesso de peso. A suspeita originou-se a partir da constatação de que os usuários da maconha costumam sentir fome após o término de seus efeitos. Usada adequadamente, segundo os cientistas, o THC pode aumentar ou mesmo diminuir o apetite. Aliás, no Canadá já é comercializado um medicamento para emagrecer com essas atribuições.

HOLANDA E CANADÁ SÃO DOS POUCOS PAÍSES QUE RECONHECEM OS ESTUDOS E A COMERCIALIZAÇÃO DE MEDICAMENTOS À BASE DE SUBSTÂNCIAS ENCONTRADAS NA MACONHA

CANABIDIOL: livre de efeitos alucinógenos, esse canabinóide mostrou eficácia no controle da ansiedade e de sintomas psicóticos em experimentos com animais. Aliás, esse resultado, considerado pioneiro no início dos anos 80, já estava registrado na tese de doutorado do atual professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, Antonio Waldo Zuardi. Duas décadas mais tarde, um de seus alunos, José Alexandre Crippa, confirmou através de imagens que o canabidiol realmente ativa as regiões cerebrais ligadas à sensação de ansiedade. "Se comprovada a mesma eficácia nos seres humanos constatada em testes com animais, o canabidiol representará um passo relevante no domínio das alucinações em pacientes com esquizofrenia", explica o professor. "Até porque o canabidiol provoca em menor intensidade o efeito colateral de sedação do que os outros medicamentos com indicação similar", afirma.

VERSÕES ALTERNATIVAS
O pesquisador David Becker, do Instituto UCL de Neurologia de Londres, conseguiu proteger neurônios de ratos, com sintomas semelhantes ao da esclerose múltipla, através da estimulação do próprio sistema de produção de canabinóides dos animais, sem recorrer à erva. Já o brasileiro Yehoshua Maor, da Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, criou uma versão sintética do THC, modificando sua estrutura para eliminar a ação alucinógena. A substância foi também testada em animais, controlando a pressão arterial. Os cientistas acreditam que, futuramente, o THC poderá ser base de medicamentos contra a hipertensão, além de auxiliar o tratamento do mal de Alzheimer, pela ação protetora sobre os neurônios.

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