segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

“A querela dos direitos”: loucos, doentes mentais e portadores de transtornos
e sofrimentos mentais
Rafael De Tilio
Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto-SP, Brasil
Resumo: Implementar e garantir direitos básicos aos portadores de sofrimento mental são
necessidades que a reforma psiquiátrica exigiu. Mas, se em tese estes são considerados sujeitosde-direito, os códigos legislativos brasileiros ainda os qualificam como incapazes e periculosos.
Pretendeu-se, através de leituras da produção científica da área, destacar concepções e práticas
sobre a loucura desde a Antigüidade até os atuais conflitos entre as concepções reformistas e os
Códigos Civil e Penal brasileiros. Como conclusão atenta-se à necessidade de se formarem
profissionais cientes desses conflitos e dispostos a lutar pela reestruturação dos códigos e das
práticas como maneira de efetivar os direitos desses cidadãos.
Palavras-chave: Reforma psiquiátrica. Direitos. Loucura. Doença mental.
“The dispute for rights”: insane people, mentally sick people and sufferers of
mental disorders or stress
Abstract: To implement and to guarantee basic rights to the sufferers of mental disorders are
some of conditions required by the psychiatric reform . Although considered citizens-with rights ,
the brazilian criminal and civil codes still consider them incapable and dangerous. By consulting
specific literature on the subject, it was possible to highlight concepts and practices about insanity
since the Antiquity up to the actual conflicts between reform formulations and the Brazilian Civil
and Criminal codes. In conclusion we call attention to the increasing necessity of training
professionals aware of these conflicts and willing to fight for the reformulation of codes and
practices as to assure the rights of these citizens.
Keywords: Psychiatric reform. Rights. Madness. Insanity.
“Las cuestiones de los derechos”: locos, enfermos mentales y portadores de
trastornos y sufrimientos mentales
Resumen: Implementar y garantizar derechos básicos a los portadores de sufrimiento mental
son necesidad que la reforma psiquiátrica exigió. Más si supone que estos sean considerados
sujetos de derecho, los códigos criminales y civiles brasileños todavía los califican incapaces y
peligrosos. Pretendió a través de lecturas de la producción científica en la área, destacar las
concepciones y practicas sobre la locura desde de la Antigüedad hasta los actuales conflictos
entre las concepciones reformistas y los códigos civil y penal brasileño. Como conclusión atentamos
a la necesidad de formación de profesionales críticos de los conflictos y dispuestos a luchar por la
reestructuración de los códigos y de las prácticas como forma de implantar los derechos de
dichos ciudadanos.
Palabras clave: Reforma psiquiátrica. Derechos. Locura. Enfermedad mental.
Disponível em www.scielo.br/paideia .
.

QUE É SER FAMILIAR DE DOENTE MENTAL

Zedyr Macedo

Presidente da Associação de Amigos, Familiares e Doentes Mentais do Brasil – AFDM-BRASIL

Na edição anterior desta “Informação Psiquiátrica”, prometemos apresentar um artigo sobre a opinião dos familiares de doentes mentais e os seus desejos em relação ao sistema de saúde mental. No entanto, por sua importância, para uma melhor compreensão da relação familiar-doente-sistema de saúde, transcrevemos, a seguir, com permissão do autor – Dr. José Hélio R. Mello – a Introdução à tese de doutorado “Esquizofrenia: sobrecarga do cuidador”. Esta tese foi aprovada com louvor e recomendação para a publicação, inclusive pelo ineditismo do tema no Brasil. Aos interessados, poderemos fornecer as referências bibliográficas correspondentes ao texto em nosso endereço.

A AFDM – BRASIL congratula-se com Dr. José Hélio R. Mello pelo seu brilhante e inédito trabalho, que vem resgatar a necessidade de se integrarem os familiares nos procedimentos de atenção à saúde mental.

Esquizofrenia: sobrecarga do cuidador.

INTRODUÇÃO

A implementação da política de ressocialização e de desinstitucionalização da assistência psiquiátrica vem-se fortalecendo cada vez mais nos últimos anos. Como era de se esperar, as modificações efetuadas na política assistencial não foram suficientes para resolver todos os problemas da psiquiatria. Sem dúvida elas promoveram avanços significativos na assistência, mas também criaram novos problemas que ainda não foram superados.

A atual política de saúde mental preconiza que se evite ao máximo as internações psiquiátricas e que estas, quando inevitáveis, tenham a menor duração possível. Deve-se dar preferência ao tratamento ambulatorial e todo o quadro assistencial deve estar mobilizado para promover a “desospitalização” imediata dos pacientes que estão submetidos a internações prolongadas. O resultado prático desta nova postura foi uma redução dramática no número de pacientes institucionalizados e uma tendência crescente de o número de altas ultrapassar o número de admissões. Estudos recentes calculam que 65% dos pacientes portadores de distúrbio mental crônico, que viviam em clínicas públicas ou privadas, já estão vivendo na comunidade. Calcula-se que um percentual semelhante de esquizofrênicos, que até então estavam submetidos a internações prolongadas, já estão fora dos hospitais psiquiátricos.

Apesar de todos os incentivos, vários estudos demonstram que a maior parte dos pacientes que foram submetidos a internações de longa duração não consegue levar uma vida normal quando retornam para a comunidade. Mesmo nos países desenvolvidos a maioria permanece desempregada, com problemas de moradia, sem amparo econômico e sem uma rede de apoio social satisfatória. O percentual de pacientes que não conseguem uma reintegração adequada, que passam a viver por conta própria ou em ambientes supervisionados e subsidiados pelo estado, é inexpressivo. Estudos feitos em diferentes países indicam que após a alta mais de 50% dos pacientes crônicos voltaram a viver sob total responsabilidade e dependência das famílias. Minkoff estima que, nos EUA, de cada 100 pacientes que saem de alta 34 a 40% voltam a viver com os cônjuges e de 35 a 40% com outros familiares.

Um conjunto de circunstâncias fez com que os cuidadores se transformassem no lastro de sustentação dos programas de saúde mental comunitária. Subitamente, as famílias e/ou os seus substitutos se transformaram nos principais agentes de assistência ao doente mental crônico, assumindo um papel que até recentemente era de responsabilidade exclusiva do Estado.

As repercussões da política de desinstitucionalização sobre os cuidadores é um capítulo da psiquiatria pouco estudado. Até recentemente, esses problemas eram subestimados e a avaliação dos profissionais se limitava, quando muito, à observação passiva das queixas que lhes eram feitas. Estudos mais modernos demonstram metodologicamente equivocadas, pois os familiares dos doentes crônicos, por total falta de esperança ou em função de experiências prévias desfavoráveis, evitam fazer qualquer tipo de queixa.

Com a implantação da política da desinstitucionalização os cuidadores começaram a se organizar e passaram a fazer uma série de reivindicações para suportar o papel que lhes foi conferido. A primeira referência sobre o sofrimento dos familiares aparece em 1946 com Treudley, que introduziu o conceito de “burden” na literatura psiquiátrica inglesa. Na língua portuguesa as palavras que mais se aproximam do conceito de “burden” são sobrecarga, fardo e peso. O caráter pejorativo associado à idéia de fardo e a ampla utilização de peso com medida física nos levou a considerar que a melhor tradução para o termo “burden” é sobrecarga.

Quase sempre o convívio com o paciente psiquiátrico produz uma sobrecarga intensa que acaba por comprometer a saúde, vida social, relação com outros membros da família, lazer, disponibilidade financeira, rotina doméstica, desempenho profissional e escolar e inúmeros outros aspectos da vida dos familiares ou substitutos. Os cuidadores que se dedicam aos pacientes mais debilitados investem tempo e energia na busca de tratamento e nas negociações para que eles aceitem se tratar. A interação com os serviços de saúde mental também é uma fonte de sobrecarga, pois na maioria das vezes os contatos são vivenciados como uma experiência frustrante, confusa e humilhante. Hanson relata a situação da mãe de um esquizofrênico crônico que diante dos impasses vividos entre as propostas dos profissionais e o comportamento do seu filho, surpreendeu o filho com o seguinte questionamento: “Por que você insiste em não ser um doente como eles querem?”

Ter um familiar com quadro psicótico agudo é uma experiência ímpar que muitas vezes envolve vizinhos, serviço médico, polícia e bombeiros. Promover a internação compulsória de uma pessoa que se estima é uma opção dolorosa e carregada de ambivalências. O sofrimento é ainda mais intenso quando se reconhece que internar não é o procedimento mais recomendado para o paciente, mas que, infelizmente, em função da total omissão dos responsáveis pelo planejamento na área de saúde mental, essa é a única forma de assistência disponível.

Não obstante às múltiplas fontes de sofrimento, a maioria dos cuidadores considera que a experiência mais dramática e a maior fonte de sofrimento é a percepção das angústias e da vida cada vez mais “empobrecida” do paciente. Muitos não se conformam em ver um parente, que até então era brilhante, cheio de projetos de vida e socialmente bem integrado, se transformar numa pessoa comprometida, dependente , desprotegida e tomada por limitações de toda natureza.

A presença do familiar do doente obriga os cuidadores a refazer os seus planos de vida e a redefinir integralmente os seus objetivos. À medida que a idade avança, as preocupações com o destino do paciente se tornam inevitáveis. Com o passar dos anos e com a conscientização da proximidade da morte, os pais acabam aprisionados por uma angústia insolúvel que é fruto das incertezas que cercam o futuro do filho. Após observar a freqüência e a semelhança das experiências vivenciadas pelos familiares, Lefley propôs que a situação fosse reconhecida como uma síndrome que ele dominou de “when I am gone”. Esse mesmo tipo de preocupação é observado no nosso meio, com os cuidadores expressando as suas angústias com frases do tipo “e depois que eu me for”.

Apesar dos intensos transtornos e do sofrimento observado, as famílias dos esquizofrênicos quase sempre aceitam conviver com os pacientes e suportam toda a sobrecarga que lhes é imposta. Independentemente da ideologia dos serviços de saúde, da renda “per capita” do país, do tempo e número de internações, enfim, de inúmeras outras variáveis, as famílias ainda representam a principal alternativa ao hospital psiquiátrico.

Na prática os cuidadores vivem uma situação kafkaniana pois além das dificuldades decorrentes do convívio com o paciente e de todo o comprometimento dos projetos pessoais, eles ainda têm que enfrentar alguns profissionais de saúde mental que insistem em responsabilizá-los pela doença do paciente e por todas as mazelas que vivenciam. Muitos se ressentem por serem responsabilizados pelas agitações e inquietudes do paciente e por serem acusados de desestimulantes e negligentes quando o paciente fica apático e inerte. Como se não bastasse, quando não conseguem executar as medidas previstas dentro dos projetos terapêuticos, passam a ser acusados de sabotadores e omissos, independentemente de qualquer avaliação sobre a sua exeqüibilidade.

No nosso meio, muitos profissionais ainda são partidários de uma concepção equivocada, onde se pressupõe que se a família tivesse adotado um outro padrão de relacionamento com o paciente não haveria doença. Sem dúvida esse modelo etiológico da doença mental tem efeitos desfavoráveis para os cuidadores, pois cria uma atmosfera pouco amistosa e tende a inibir as manifestações de solidariedade e amparo que as famílias desejam receber dos profissionais e da comunidade. Muitos familiares se sentem acusados como se fossem os “bruxos” da era moderna.

Durante décadas as famílias foram alijadas do processo terapêutico e o acesso aos serviços de saúde mental ficou limitado aos cuidadores que se reconheciam como culpados e que se dispunham a participar de uma “terapia familiar”, na qual deveriam ser exorcizados. O resultado de tudo isso foi um aumento no sofrimento dos cuidadores, o acúmulo de experiências humilhantes e o aumento do abandono dos pacientes mais graves e debilitados. Poucos foram os profissionais que reconheciam os efeitos colaterais desses tratamentos nos pacientes e familiares.

O acúmulo de experiências desastrosas e o retorno dos pacientes à comunidade superaram o ”marketing” dessas teorias e permitiram que houvesse um novo entendimento sobre o papel dos cuidadores nos programas terapêuticos e na implantação das políticas de saúde mental. A partir do final da década de 70 os profissionais de saúde começaram a se preocupar em dar apoio e a valorizar o familiar ou o seu substituto, pois reconheceram que eles representam um segmento determinante para o sucesso dos programas de desinstitucionalização.

Atualmente o que se preconiza é a orientação e apoio para os familiares. Os estudos sobre a emoção expressada demonstram como a família interfere na evolução do quadro clínico, no número e no tempo médio das internações. Estudos de segmento apuraram que a probabilidade do quadro clínico evoluir de forma desfavorável é significativamente maior nas famílias onde existe um criticismo exacerbado ou superenvolvimento afetivo com o familiar doente do que nas famílias sem estas características. Os pesquisadores fazem questão de ressaltar que o clima familiar de maior criticismo ou de superenvolvimento não deve ser considerado como “o” agente etiológico da doença mental, mas sim como mais um fator desfavorável. Neste modelo a esquizofrenia seria uma situação de vulnerabilidade ao estresse, biologicamente condicionada, e o criticismo e o superenvolvimento funcionariam como uma “superestimulação” desfavorável para os esquizofrênicos.

Atualmente, existe um consenso de que a intervenção na sua família influi favoravelmente no curso da doença.

Ryglewcz sugere que tanto os familiares como os profissionais podem se beneficiar de programas educacionais que visam ajudar a reduzir os efeitos do estresse ambiental sobre o paciente. Nestes programas as famílias recebem apoio; informações sobre a doença e uso de medicamentos; ajuda para identificar as fontes de estresse e técnicas para reduzi-lo; informações sobre como lidar com o paciente; e são incentivadas a valorizar as suas necessidades e a dos outros membros da família. Muitos desses estudos demonstram uma correlação positiva significativa entre o uso de técnicas psicoeducacionais, baixas doses de medicamentos e a redução na taxa de “reagudização” do quadro psicótico.

Apesar de todos esses avanços, o número de centros de saúde mental que oferecem programas específicos de apoio para os cuidadores e que aceitam como aliados na elaboração dos projetos terapêuticos e de reabilitação é extremamente reduzido. Infelizmente, na maioria dos serviços o único papel reservado para a família é o de agente custodial e, normalmente, não se considera a necessidade de eles receberem informações sobre a doença, de expressarem os seus pontos de vista e as suas dificuldades.

Psiquiatria é uma especialidade da Medicina que lida com a prevenção, atendimento, diagnóstico, tratamento e reabilitação das diferentes formas de sofrimentos mentais, sejam elas de cunho orgânico ou funcional, com manifestações psicólogicas severas. São exemplos: a depressão, o transtorno bipolar, a esquizofrenia e os transtornos de ansiedade. A meta principal é o alívio do sofrimento e o bem-estar psíquico. Para isso, é necessária uma avaliação completa do paciente, com perspectivas biológica, psicológica, de ordem cultural, entre outras afins. Uma doença ou problema psíquico pode ser tratado através de medicamentos ou terapêuticas diversas, como a psicoterapia, prática de maior tradição no tratamento. A avaliação psiquiátrica envolve o exame do estado mental e a história clínica. Testes psicológicos, neurológicos, neuropsicólogicos e exames de imagem podem ser utilizados como auxiliares na avaliação, assim como exames físicos e laboratoriais. Para uso dos testes devem ser procurados os profissionais específicos autorizados para aplicá-los. Os procedimentos diagnósticos são norteados a partir do campo das psicopatologias; critérios bastante usados hoje em dia, principalmente na saúde pública, são a CID-10 da Organização Mundial de Saúde, adotada no Brasil, e o DSM-IV da American Psychiatric Association.

Os medicamentos psiquiátricos são parte importante do arsenal terapêutico, o que é único na Psiquiatria, assim como procedimentos mais raramente utilizados, muito já criticados na história do movimento psiquiátrico, como a eletroconvulsoterapia. A psicoterapia também faz parte do arsenal terapêutico do psiquiatra, embora seja bem melhor utilizada por outros profissionais de saúde mental: Psicólogos e Psicanalistas. No entanto, a ferramenta da psicoterapia é sempre útil para as entrevistas diagnósticas e orientações; para prática-la o psiquiatra deve fazer a formação complementar. Os serviços psiquiáticos podem fornecer atendimento de forma ambulatorial ou em internamento. Em casos de sofrimento grave do paciente e risco para si e para os outros que o cercam, a indicação de internação pode até ocorrer de forma involuntária. Tanto a clínica quanto a pesquisa em psiquiatria são realizadas de forma interdisciplinar.[1]


A palavra Psiquiatria deriva do Grego e quer dizer "arte de curar a alma"


Aparentemente, a Psiquiatria originou-se no século V A.C., enquanto que os primeiros hospitais para doentes mentais foram criados na Idade Média. Durante o século XVIII a Psiquiatria evoluiu como campo médico e as instituições para doentes mentais passaram a utilizar tratamentos mais elaborados e humanos. No século XIX houve um aumento importante no número de pacientes. No século XX houve o renascimento do entendimento biológico das doenças mentais, introdução de classificações para os transtornos e medicamentos psiquiátricos. A antipsiquiatria ou movimento anti-psiquiátrico surgiu na década de 1960 e levou à desinstitucionalização em favor aos tratamentos na comunidade. Estudos científicos continuam a buscar explicações para as origens, classificação e tratamento dos transtornos mentais.

Os transtornos mentais são descritos por suas características patológicas, ou psicopatologia, que é um ramo descritivo destes fenômenos. Muitas doenças psiquiátricas ainda não têm cura. Enquanto algumas têm curso breve e poucos sintomas, outras são condições crônicas que apresentam importante impacto na qualidade de vida do paciente, necessitando de tratamento a longo prazo ou por toda a vida. A efetividade do tratamento também varia em cada paciente.

Movimento antimanicomial

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

O Movimento Antimanicomial , também conhecido como Luta Antimanicomial, se refere a um processo mais ou menos organizado de transformação dosServiços Psiquiátricos, derivado de uma série de eventos políticos nacionais e internacionais. O termo costuma ser usado de modo generalizante e pouco preciso.

O Movimento Antimanicomial tem o dia 18 de maio como data de comemoração no calendário nacional brasileiro. Esta data remete ao Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental, ocorrido em 1987, na cidade de Bauru, no estado de São Paulo.

Na sua origem, esse movimento está ligado à Reforma Sanitária Brasileira da qual resultou a criação do Sistema Unico de Saúde - (SUS); está ligado também à experiência de desinstitucionalização da Psiquiatria desenvolvidas em Gorizia e em Trieste, na Itália, por Franco Basaglia nos anos 60.

Como processo decorrente deste movimento, temos a Reforma Psiquiátrica, definida pela Lei 10216 de 2001 (Lei Paulo Delgado) como diretriz de reformulação do modelo de Atenção à Saúde Mental, transferido o foco do tratamento que se concentrava na instituição hospitalar, para uma Rede de Atenção Psicossocial, estruturada em unidades de serviços comunitários e abertos.

Segundo os estudos do Dr.Paulo Amarante, coordenador do livro Loucos Pela Vida: a Trajetória da Reforma Psiquiátrica no Brasil [1], a reforma psiquiátrica é um processo complexo [2], pode-se registrar como evento inaugural, desse movimento, a crise institucional vivida pela Divisão de Saúde Mental do Ministério da Saúde,(DINSAM) na década de setenta.

[3]Política pública de saúde mental é um processo político e social complexo, composto de participantes, instituições e forças de diferentes origens que acontece em diversos territórios. É um conjunto de transformações de práticas, saberes, valores culturais e sociais, e é no cotidiano da vida das instituições, dos serviços e das relações interpessoais que o processo da política avança, passando por tensões, conflitos e desafios.

Nos séculos passados, quando ainda não havia controle de saúde mental, a loucura era uma questão privada onde, as famílias eram responsáveis por seus membros portadores de transtorno mental. Os loucos eram livres para circulação nos campos, mas, nem tudo eram flores. Eles também eram alvo de chacotas, zombarias e escárnio público.

Com o passar dos anos, começou então a discussão e luta pela implantação de serviços de saúde mental no Brasil. Foi ai então que surgiram as primeiras instituições, no ano de 1841 na cidade do Rio de Janeiro, que era um abrigo provisório, logo após surgirem outras instituições como hospícios e casas de saúde. Somente agora no final do século XX é que a militância por serviços humanizados consegui às primeiras implantações de Centros de Atenção Psicossocial os CAPS .

Foi em 2001 que a Lei Paulo Delgado foi sancionada no país. A Lei redireciona a assistência em saúde mental, privilegiando o oferecimento de tratamento em serviços de base comunitária, dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais, mas não institui mecanismos claros para a progressiva extinção dos manicômios.

[editar]Referências

  1. AMARANTE, Paulo. Loucos Pela Vida: a Trajetória da Reforma Psiquiátrica no Brasil Realease
  2. Textos da Mostara em Saúde Mental da UFES
  3. RESENDE,Heitor. Cidadania e Loucura: Políticas de Saúde Mental no Brasil. 7. Ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

[editar]Ver também

[editar]Ligações externas

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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

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Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) como dispositivos da reforma psiquiátrica

Neste artigo você conhecerá o que são os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e qual sua importância para a melhoria na qualidade do atendimento em saúde mental.

Dando continuidade ao assunto da luta antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica Brasileira, gostaria de falar um pouco sobre os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) como um dos serviços subistitutivos propostos pela Reforma. A função dos CAPS é de prestar atendimento a pessoas com grave sofrimento psíquico, diminuindo e evitando internações psiquiátricas, e articular-se com a rede de serviços da comunidade favorecendo a reinserção delas a este espaço.

Inicialmente oficializados pela Portaria GM 224/92 que os definia como "unidades de saúde locais/regionalizadas que contam com uma população adscrita definida pelo nível local e que oferecem atendimento de cuidados intermediários entre o regime ambulatorial e a internação hospitalar, em um ou dois turnos de quatro horas, por equipe multiprofissional" (p.2441), atualmente são regulamentados pela Portaria nº 336/GM, de 19 de fevereiro de 2002(idem). Esta Portaria incluiu os CAPS no SUS (Sistema Único de Saúde), reconheceu sua complexidade de serviços prestados e sua amplitude de atuação - tanto no território onde se encontra, quanto na luta pela substituição do modelo hospitalocêntrico de atenção à saúde.

Mas, o quê exatamente os CAPS fazem e a quem atendem?

Os CAPS possuem equipe multiprofissional - composta por psicólogos, psiquiatras, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, técnicos administrativos, etc - e oferecem diversas atividades terapêuticas: psicoterapia individual ou grupal, oficinas terapêuticas, acompanhamento psiquiátrico, visitas domiciliares, atividades de orientação e inclusão das famílias e atividades comunitárias. De acordo com o projeto terapêutico de cada usuário, estes podem passar o dia todo na Unidade, parte do dia ou vir apenas para alguma consulta. Comparecendo todos os dias estarão em regime intensivo, alguns dias da semana em regime semi-intensivo e alguns dias no mês em não-intensivo. As necessidades de cada usuário e os projetos terapêuticos, compreendendo as modalidades de atendimento citadas e os tempos de permanência no serviço, são decididas pela equipe, em contato com as famílias também, e igualmente as mudanças neste projeto segundo as evoluções de cada usuário.

Como serviços de saúde mental, atendem pessoas com transtornos mentais severos e persistentes, como psicoses e neuroses graves, buscando amenizar e tratar as crises para que estas pessoas possam recuperar sua autonomia e se reinserir nas atividades cotidianas. Por possibilitar que seus usuários voltem para casa todos os dias, os CAPS evitam a quebra nos laços familiares e sociais, fator muito comum em internações de longa duração.

Os CAPS trabalham bastante articulados com a rede de serviços da região, pois têm a função de dar suporte e supervisão à rede básica também, além de envolver-se em ações intersetoriais - com a educação, trabalho, esporte, cultura, lazer, etc - na busca de reinserção dos seus membros em todas as áreas da vida cotidiana.

Existem algumas modalidades de CAPS, de acordo com as diferentes necessidades de cada território: CAPS I - para municípios com populações entre 20.000 e 70.000 habitantes, CAPS II - para populações entre 70.000 e 200.000 habitantes, CAPS III - acima de 200.000 habitantes (este é o único que funciona 24 horas, incluindo feriados e fins de semana), CAPSi - atende crianças e adolescentes (até 17 anos de idade), e CAPSad - atende usuários de álcool e outras drogas cujo uso é secundário ao transtorno mental clínico.

O primeiro CAPS do Brasil foi o Centro de Atenção Psicossocial Professor Luiz da Rocha Cerqueira, conhecido como CAPS Itapeva, inaugurado em março de 1986 em São Paulo. Este serviço continua em plena atividade e hoje temos cerca de 516 CAPS no Brasil, sendo 111 em São Paulo (Fonte: Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde; março de 2004(2)). E destes, 93% são municipais(idem), mostrando a força da esfera pública nesta Luta, fato que nos convida cada vez mais à participação.

O compromisso destes serviços, e de cada um de nós, é de retirar a loucura do enclausuramento e do isolamento em que vive há tantos anos. Precisamos perceber que a "loucura" não está só no outro e que, à medida em que a negamos e a afastamos, excluímos do convívio social também as pessoas que dela sofrem. Deixamos de perceber suas particularidades e belezas. Deixamos de tratá-las como cidadãos também. Todos temos o direito de conquistar nossos desejos e de realizarmo-nos como pessoas.

Podemos ajudar, ainda, aproximando-nos do CAPS ou outro serviço de saúde mental mais próximo à nossa casa, oferecendo nossa participação ou apenas convívio em alguma atividade realizada, favorecendo a realização de parcerias com outras instituições da região, ou apenas começando a olhar diferente para estas pessoas que cada vez mais estão (e estarão) próximas a nós...



Referência:

1) Legislação em Saúde Mental: 1990 - 2004 / Ministério da Saúde, Secretaria Executiva, Secretaria de Atenção à Saúde - 5. ed. ampl. - Brasília: Ministério da Saúde, 2004

2) Saúde Mental no SUS: os Centros de Atenção Psicossocial / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas - Brasília: Ministério da Saúde, 2004

Autor(a):Gabriela Malavazi
Psicóloga, graduada pela PUC-SP, título de especialista em Psicologia Hospitalar pelo Hospital das Clínicas da FM-USP, atuou em CAPS e atualmente numa Unidade Básica de Saúde pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo. Atende em consultório particular na Zona Norte (Santana)
Contato:gmpsic@gmail.com - Fone: (11)8332-5178


CAPS

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.



CAPS ou Caps pode referir-se a:

Os Centros de Atenção Psicossocial – (CAPS), são serviços públicos de saúde mental, destinados a atender indivíduos com transtornos mentais em estado mais agravado. Esse serviço é uma substituição as internações em hospitais psiquiátricos, e tem como maior objetivo tratar a saúde mental de forma adequada, oferecendo atendimento á população, realizando o acompanhamento clínico, e promovendo a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho e ao lazer, a fim de fortalecer os laços familiares e comunitários. Esse serviço oferece três modalidades de tratamento (intensivo, semi-intensivo, e não intensivo), que variam de acordo com a necessidade do indivíduo. O atendimento intensivo trata-se de atendimento diário oferecido quando a pessoa se encontra com grave sofrimento psíquico, em situação de crise ou dificuldades intensas no convívio social e familiar, precisando de atenção contínua. Esse atendimento pode ser domiciliar, se necessário. O semi-intensivo, no qual, o usuário pode ser atendido até doze dias no mês, sendo que essa modalidade é oferecida quando o sofrimento e a desestruturação psíquica da pessoa diminuíram, melhorando as possibilidades de relacionamento. Más deve-se ressaltar que a pessoa ainda necessita de atenção direta da equipe do serviço para se estruturar e recuperar sua autonomia. E o não intensivo, que é oferecido quando a pessoa não precisa de suporte da equipe para viver em seu território e realizar suas atividades na família e/ou no trabalho, podendo ser atendido até três dias no mês. Logo, para ser atendido no CAPS, pode-se procurar diretamente esse serviço ou ser encaminhado pelo Programa de Saúde da Família ou por qualquer serviço de saúde. A pessoa também pode ir sozinha, mas na maioria dos casos é levada pela família, devendo ser acolhida em seu sofrimento a fim de construir um vínculo terapêutico e de confiança entre o profissional e o indivíduo que procura o serviço. Posteriormente é traçado um projeto terapêutico individual, construído de forma estratégica para atender as atividades de maior interesse para eles, respeitando o contexto em que estão inseridos, e atendendo também as suas necessidades. O usuário neste momento também se compromete a cooperar com o tratamento, seguindo as prescrições médicas, participando de oficinas culturais, grupos terapêuticos, atividades esportivas, oficinas expressivas (dança, técnicas teatrais, pintura, argila, atividades musicais), oficinas geradora de renda (marcenaria, cerâmica, bijuterias, brechó, artesanato em geral), e oficinas de alfabetização o que possibilita exercitar a escrita e a leitura, como um recurso importante na (re)construção da cidadania, oferece atividade de suporte social, grupos de leitura e debate, que estimulam a criatividade, a autonomia, e a capacidade de estabelecer relações interpessoais impulsionando-os a inserção social. Essas oficinas podem contar com a participação da família e da comunidade, que são muito importantes para o processo de reabilitação e reinserção das pessoas portadoras de transtorno mental, pois produzem um grande e variado conjunto de relações de troca, reforçando os laços sociais e afetivos e proporcionando maior inclusão social desses membros. A proposta de cuidado ao portador de transtorno mental no interior dos CAPS é baseada em ações que visam a sua reabilitação psicossocial, pela busca de autonomia e de cidadania, ressaltando a integridade e as influências biopsicossociais no tratamento a ser executado. Dessa forma o CAPS será um instrumento que viabiliza a relação entre a família e usuário e entre o usuário e a instituição, incentivando a participação dos familiares, profissionais, e da comunidade nos projetos propostos a fim de gerar uma parceria.